Seletividade alimentar no Transtorno do Espectro Autista (TEA)b

A seletividade alimentar é uma das dificuldades mais frequentes em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), caracterizando-se pela aceitação de um número restrito de alimentos, recusa em experimentar novos alimentos (neofobia alimentar) e preferência por determinadas texturas, cores, temperaturas, odores ou marcas. Esse comportamento pode comprometer a ingestão adequada de nutrientes, o crescimento, o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança e de sua família.

Do ponto de vista teórico, a seletividade alimentar no TEA é considerada multifatorial. As alterações no processamento sensorial, frequentemente presentes nesse transtorno, fazem com que estímulos relacionados aos alimentos sejam percebidos de forma mais intensa ou desagradável. Além disso, padrões de comportamento restritos e repetitivos, rigidez cognitiva e forte necessidade de rotina podem dificultar a aceitação de novos alimentos e mudanças na alimentação.

Outro aspecto importante refere-se às consequências nutricionais. Crianças com TEA que apresentam seletividade alimentar tendem a consumir menor variedade de frutas, verduras, legumes e proteínas, com maior preferência por alimentos ultraprocessados. Esse padrão alimentar pode aumentar o risco de deficiências de micronutrientes, como ferro, cálcio, vitamina D, ácido fólico e zinco, além de favorecer alterações no estado nutricional, incluindo baixo peso ou excesso de peso.

A literatura destaca que o tratamento deve ser realizado por uma equipe multiprofissional, envolvendo nutricionista, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, psicólogo e pediatra. As intervenções incluem exposição gradual a novos alimentos, dessensibilização sensorial, orientação familiar, adaptação do ambiente das refeições e estratégias comportamentais, respeitando o ritmo e as necessidades individuais da criança. O objetivo não é apenas ampliar o repertório alimentar, mas também promover uma relação positiva e saudável com a alimentação.

Referências

  • Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). Arlington: American Psychiatric Association, 2022.
  • MORAES, L. S. et al. Seletividade alimentar em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista. Revista da Associação Brasileira de Nutrição (RASBRAN), v. 12, n. 2, p. 42–58, 2021.
  • HARRIS, H. A. et al. Child autistic traits, food selectivity, and diet quality: a population-based study. Journal of Nutrition, v. 152, n. 3, p. 856–862, 2022.
  • CERMAK, S. A.; CURTIN, C.; BANDINI, L. G. Food selectivity and sensory sensitivity in children with autism spectrum disorders. Journal of the American Dietetic Association, v. 110, n. 2, p. 238–246, 2010.
  • HUBBARD, K. L. et al. A comparison of food refusal related to characteristics of food in children with autism spectrum disorder and typically developing children. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 114, n. 12, p. 1981–1987, 2014.

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