
Fazer amigos é uma parte importante do desenvolvimento infantil. Por meio das amizades, as crianças aprendem a compartilhar experiências, resolver conflitos, desenvolver empatia e fortalecer sua autoestima. No entanto, para muitas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), construir e manter relações sociais pode representar um desafio.
Isso não significa que elas não desejem ter amigos. Pelo contrário, muitas crianças autistas demonstram interesse em interagir, mas podem encontrar dificuldades para compreender regras sociais implícitas, iniciar conversas ou interpretar expressões faciais, gestos e emoções.
A boa notícia é que, com apoio adequado e oportunidades estruturadas, é possível favorecer o desenvolvimento de amizades significativas.
Por que crianças autistas podem ter dificuldade em fazer amigos?
Segundo o DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022), uma das características centrais do TEA envolve dificuldades persistentes na comunicação e na interação social.
Essas dificuldades podem incluir:
• compreender regras sociais não verbalizadas;
• iniciar ou manter conversas;
• compartilhar interesses espontaneamente;
• interpretar expressões faciais e linguagem corporal;
• compreender ironias, brincadeiras ou duplo sentido;
• lidar com mudanças durante as brincadeiras.
Além disso, diferenças no processamento sensorial podem fazer com que ambientes muito barulhentos ou movimentados sejam desconfortáveis, reduzindo as oportunidades de interação.
É importante lembrar que essas dificuldades variam amplamente entre as pessoas autistas. Cada criança apresenta habilidades e necessidades únicas.
1. Valorize os interesses da criança
Os interesses específicos podem ser excelentes pontes para amizades.
Quando duas crianças compartilham um interesse — como dinossauros, trens, astronomia, desenhos, videogames ou música — a interação tende a acontecer de forma mais natural.
Participar de grupos, oficinas ou atividades relacionadas aos interesses da criança aumenta as oportunidades de encontrar colegas com afinidades semelhantes.
2. Ensine habilidades sociais de forma explícita
Muitas habilidades sociais são aprendidas intuitivamente pela maioria das crianças, mas podem precisar ser ensinadas diretamente para crianças autistas.
É possível praticar:
• iniciar uma conversa;
• fazer perguntas;
• esperar a vez de falar;
• compartilhar brinquedos;
• reconhecer emoções;
• resolver pequenos conflitos;
• convidar alguém para brincar.
Essas habilidades podem ser ensinadas por meio de modelagem, dramatizações (role-play), histórias sociais e jogos estruturados.
3. Promova encontros em ambientes previsíveis
Ambientes muito estimulantes podem dificultar as interações.
Inicialmente, encontros com apenas uma criança, em locais tranquilos e familiares, costumam favorecer uma experiência mais positiva.
Brincadeiras estruturadas, jogos cooperativos e atividades com objetivos claros costumam facilitar a participação.
4. Respeite o tempo da criança
Cada criança possui seu próprio ritmo.
Forçar interações ou insistir em situações desconfortáveis pode aumentar a ansiedade e reduzir a confiança social.
O objetivo não é fazer com que a criança tenha muitos amigos, mas sim construir relações que sejam significativas e prazerosas para ela.
5. Trabalhe em parceria com a escola
A escola desempenha um papel fundamental na promoção da inclusão.
Professores podem organizar:
• atividades cooperativas;
• trabalhos em dupla;
• rodas de conversa;
• brincadeiras mediadas;
• programas de colegas tutores (peer-mediated interventions), considerados uma das estratégias com melhores evidências científicas para promover interação social entre crianças autistas.
6. Evite tentar mudar a personalidade da criança
A meta não é ensinar a criança a “parecer menos autista”.
Atualmente, pesquisadores e pessoas autistas defendem abordagens que respeitem as diferenças individuais e promovam participação social sem exigir mascaramento constante (camouflaging), comportamento associado a maior sofrimento emocional, ansiedade e exaustão.
Amizades verdadeiras surgem quando a criança pode ser aceita como ela é.
O papel da família
Pais e cuidadores são modelos importantes para o desenvolvimento das habilidades sociais.
Algumas atitudes podem fazer diferença:
• incentivar pequenas oportunidades de interação;
• reconhecer conquistas sociais;
• evitar críticas constantes;
• ajudar a interpretar situações sociais difíceis;
• oferecer apoio emocional após experiências frustrantes.
O acolhimento familiar fortalece a autoestima e aumenta a confiança para novas experiências.
Quando procurar ajuda profissional?
Caso a criança apresente dificuldades importantes para iniciar ou manter relações sociais, uma avaliação com profissionais especializados pode identificar quais habilidades precisam ser desenvolvidas.
Psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e outros profissionais da equipe multiprofissional podem utilizar intervenções baseadas em evidências para favorecer a comunicação, a interação social e a participação em diferentes contextos.
Considerações finais
Cada amizade construída representa uma oportunidade de crescimento, aprendizado e pertencimento.
A criança autista não precisa aprender a ser outra pessoa para fazer amigos. Ela precisa de ambientes acolhedores, oportunidades de interação e adultos que compreendam suas características, respeitem seu ritmo e valorizem suas potencialidades.
Promover inclusão é criar espaços onde todas as crianças possam desenvolver relações significativas sendo respeitadas em sua individualidade.
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Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5ª ed., texto revisado – DSM-5-TR). American Psychiatric Publishing.
Organização Mundial da Saúde. (2022). Classificação Internacional de Doenças – CID-11. World Health Organization.
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). (2021). Autism spectrum disorder in under 19s: support and management (CG170).
Kasari, C., & Patterson, S. (2012). Interventions addressing social impairment in autism. Current Psychiatry Reports, 14(6), 713–725.
Laugeson, E. A., & Frankel, F. (2010). Social Skills for Teenagers with Developmental and Autism Spectrum Disorders: The PEERS Treatment Manual. Routledge.
Lord, C., Brugha, T. S., Charman, T., et al. (2020). Autism spectrum disorder. Nature Reviews Disease Primers, 6(1), 5.
